DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO

 

Com o diagnóstico de que o bebê nasceu com a síndrome da zika, mamães, papais e toda a família que vai conviver com a criança precisam entender um pouco o que é isso, as razões que a levam a ter um determinado tipo de comportamento e, principalmente, como ajudá-lo na vida diária.

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Os profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, psicoterapeutas, fisioterapeutas e outros vão acompanhar essa criança e usarão muitas palavras – termos técnicos – que são difíceis de entender nos primeiros momentos. Aos poucos, vocês irão se acostumando com isso e a melhor maneira de aprender mais e mais é perguntar. Não tenha vergonha de perguntar e de pedir para que lhes expliquem exatamente o que significada cada palavra que você não entendeu.
Lembre-se: Você não é especialista e não tem obrigação de conhecer o vocabulários que profissionais de saúde usam – corretamente – para cada problema detectado no diagnóstico.

Para ajudar nessa conversa com os profissionais de saúde, vamos apresentar a seguir as principais alterações neurológicas que têm sido identificadas em crianças com a síndrome da zika e que devem ser observadas no exame neurológico a partir do primeiro mês de vida. Você pode ter dificuldade de identificar algumas delas no começo, mas depois, acompanhando o desenvolvimento do bebê, aprendendo a lidar com ele, vai entendendo isso na prática.
Vamos lá.
Em primeiro lugar, vamos falar sobre as diferenças entre microcefalia e a síndrome da zika.
Por ser até recentemente desconhecida, compreensão sobre o que é o virus zika e o que ele causa foi acontecendo aos poucos. Existe uma clara relação entre microcefalia e zika. Isso se comprova pelo grande número, a maioria, na verdade, de bebês cujas mães foram infectadas pelo vírus zika quando estavam grávidas, que nasceram com microcefalia.

O que é microcefalia?

A microcefalia é uma condição em que a cabeça do bebê é menor do que a cabeça de crianças com a mesma idade e mesmo sexo. Ela acontece ainda durante a gravidez, quando há problemas no útero e o cérebro do bebê para de crescer normalmente. Pode acontecer, também, depois que o bebê nasce. Crianças nascidas com microcefalia muitas vezes apresentam dificuldades de desenvolvimento à medida que vão crescendo, mas, em alguns casos, elas se desenvolvem normalmente. A microcefalia pode ser causada por uma variedade de fatores ambientais e genéticos, como a síndrome de Down; exposição a drogas, álcool ou outras toxinas no útero; e infecção por rubéola durante a gravidez.

O que é a síndrome congênita do vírus zika?

Além da microcefalia congênita, os médicos foram descobrindo outras manifestações entre bebês com até quatro meses de idade expostos ao vírus zika no útero. Entre elas, estão malformações na cabeça, movimentos involuntários, convulsões, irritabilidade e disfunção do tronco cerebral, com problemas de deglutição, contraturas de membros, questões de audição e visão e alterações cerebrais. Outras consequências associadas à infecção pelo Zika Vírus no útero podem envolver abortos espontâneos e natimortos (quando o bebê morre no útero).
Nem todas as crianças com síndrome da zika apresentam microcefalia. Mas isso não significa necessariamente que o feto ou recém-nascido não tenha alterações. Um exemplo: questões auditivas não podem ser avaliadas no útero, apenas após o nascimento. Alguns sinais, como convulsões, também se desenvolvem após esse período.

Outras ocorrências que podem afetar crianças com a síndrome da zika:
Hipertonia

Hipertonia é o aumento excessivo do tônus muscular o que provoca a rigidez dos músculos tanto dos membros superiores – braços – quanto dos membros inferiores – as pernas. Ela dificulta a flexibilidade e a movimentação desses membros. Essa hipertonia é comum no recém nascido até os 2-3 meses de vida. No entanto, algumas crianças que nascem com a síndrome da zika podem apresentar uma acentuação de tal hipertonia, com um exagero da rigidez de braços e pernas e mãos sempre fechadas.
Durante o período neonatal e até os 2-3 meses de vida, é comum haver um certo grau de hipertonia, com postura em flexão nos braços e mãos e semi extensão das pernas. Nesta fase, é fácil perceber o grau de hipertonia nos braços e nas mãos, realizando a manobra do cachecol. Ela consiste na tentativa de se levar os membros superiores da criança para a linha média, onde é possível que os cotovelos se encontrem nesta região. Na criança com hipertonia acentuada, não é possível essa manobra ou há muita resistência. Tanto nos membros superiores quanto nos membros inferiores, a hipertonia pode ser avaliada através da tentativa de mobilização passiva dos membros, que ocorrerá com mais dificuldade e resistência.

Persistência ou exagero dos reflexos arcaicos ou primitivos

O que são reflexos arcaicos ou primitivos?
São os reflexos – movimentos involuntários – que todo recém-nascido apresenta logo ao nascer. Com o passar do tempo eles diminuem de intensidade até desaparecer por completo. São testados pelos pediatras e se caracterizam como atividades involuntárias.

Os principais reflexos arcaicos (primitivos) são:

1. Reflexo de preensão palmar e plantar (dos dedos das mãos e dos pés):
É notado quando a criança apreende qualquer objeto colocado na superfície de seus dedos, ou seja no centro de sua mão ou pé. Desaparece ao redor dos 7 aos 9 meses.
2. Reflexo de sucção:
É um dos mais importantes, pois garante que o recém-nascido vai reconhecer o peito como fonte de alimento. Testa-se colocando o dedo na boca da criança, que vai sugá-lo. Desaparece por volta dos 3 meses.
3. Reflexo de busca ou voracidade:
Quando o canto da boca do recém-nascido é estimulado, ele desloca a face em direção ao estímulo. Desaparece aos 3 meses.
4. Reflexo de apoio plantar:
Ao suspender o recém-nascido pelas axilas e segurá-lo, fazendo com que as pontas dos pés toquem a superfície, ele irá apoiar seus pés. Também desenvolverá a marcha reflexa. Desaparece aos 3 meses.
5. Marcha reflexa:
Ao suspender o recém nascido pelas axilas e segurá-lo, fazendo com que os seus pés toquem a superfície, e, ao mesmo tempo, impulsionando-o para a frente, ele vai apresentar uma marcha reflexa. Desaparece aos 3 meses.
6. Reflexo de moro:
Conhecido como reflexo do susto ou do abraço. É desencadeado por estímulos, como o sonoro ou mesmo o contato: a criança abre os braços e mãos e depois volta ao normal, fechando-os como se estivesse se abraçando. Desaparece ao redor de 3 meses.
7. Reflexo cutâneo plantar:
Quando se estimula a borda do pé, o recém-nascido faz extensão do hálux (dedão do pé) e abertura dos outros dedos formando um leque.
Fonte: Marina Zanetti | Texto Aprovado pelo Conselho Médico do MediFoco
Uma das observações mais encontradas nas crianças nascidas com a síndrome da zika é o exagero e posterior persistência de alguns reflexos arcaicos.
Um dos principais é o reflexo tônico-cervical assimétrico, que é a atitude reflexa do recém-nascido de lateralizar a cabeça para o lado e, consequentemente, assumir a postura de extensão dos membros para os quais se orienta a face e a flexão dos membros do lado oposto. Mesmo no período em que este reflexo é observado, se a criança mantém esta postura de maneira contínua e persistente, já é considerado um sinal.

Desproporção craniofacial

São defeitos estruturais da cabeça devido ao desenvolvimento atípico do feto. O cérebro não se desenvolve de maneira adequada e o bebê nasce com perímetro cefálico (PC) menor que o normal, ou seja, igual ou inferior a 32 cm. É fácil fazer esse teste e, por essa razão, as gestantes e mães perguntam sempre aos médicos sobre o “tamanho da cabeça do meu bebê”.
A microcefalia que pode ser verificada facilmente pela medida do perímetro da cabeça. No entanto, algumas crianças podem apresentar um PC dentro do limite inferior da normalidade, mas é possível observar uma desproporção craniofacial, que é a discrepância do tamanho da face e do crânio, sendo possível perceber algum grau de comprometimento do crescimento normal do crânio.

Alteração de PC /hidrocefalia pela expansão da fontanela anterior

A alteração do PC (perímetro cefálico) é o achado mais importante e é utilizado como parâmetro inicial para triagem das crianças em risco. Daí o termo microcefalia ter se difundido com muita facilidade após o início da epidemia da síndrome da zika. Porém, outros achados relacionados à medição e o acompanhamento do PC durante o primeiro ano de vida também devem ser avaliados.
Outra particularidade nas crianças com síndrome da zika é a ocorrência, em alguns casos, de uma protuberância na região occipital, associada a uma redundância de pele nesta região (excesso de pele). Este achado se deve ao fato de a lesão neurológica determinar uma redução do crânio após este já ter atingido um volume maior, o que faz com que a pele já distendida pelo volume anterior do crânio, permaneça como excesso quando ocorre uma redução forçada do mesmo. Caso uma criança que tenha microcefalia, evolua de um mês para outro com aumento inesperado do PC, podendo até entrar na curva da normalidade, é fundamental levantar um alerta da possibilidade de hidrocefalia. Como as suturas do crânio estão abertas nessa faixa etária, o efeito principal da hidrocefalia é o aumento do PC e abaulamento, caso ainda seja palpável, da fontanela anterior.

Epilepsia /espasmos

Diante das malformações do desenvolvimento do córtex (parte do cérebro localizada no alto da cabeça) que ocorrem na síndrome da zika, uma consequência comum é a ocorrência de epilepsia, na forma de crises sutis, motoras focais ou, o mais comum, espasmos infantis. São contrações bruscas e súbitas do corpo para frente, que se repetem em intervalos regulares (salvas), várias vezes ao dia e acarretam choro e irritabilidade entre os espasmos. Outras crises também podem ocorrer, como crises crônicas localizadas em apenas um membro ou apenas de um lado do corpo, bem como crises generalizadas.
É importante estar atento a essas crises, pois é muito comum que os espasmos sejam interpretadas pela família e até por profissionais da área de saúde, como cólicas ou gases. O tratamento correto ajuda a melhorar as condições do bebê.

Irritabilidade /hiperexcitabilidade

Três fatores têm sido constatados e relacionados na causa da irritabilidade contínua que algumas crianças apresentam ao nascimento e durante as primeiras semanas de vida: hipertonia (aumento da rigidez dos músculos), presença de refluxo gastroesofágico (quando a alimentação volta pela boca) e a epilepsia. Quando essas condições são tratadas logo no início, tem sido observada melhoria da irritabilidade dessas crianças.
Mães e pais. Fiquem atentos para dar o tratamento correto logo no início. Os casos atendidos têm mostrado que o resultado do tratamento ajuda a melhorar a irritabilidade da criança, responsável pelo choro constante.

Alterações visuais

Como toda infecção congênita (acontecida durante a gravidez), o vírus Zika também pode causar danos na retina dos bebês. Portanto, o comprometimento visual da criança pode ser decorrente tanto das lesões da retinite pigmentar (degeneração da retina), quanto do dano do sistema nervoso central. Todas as crianças diagnosticadas com a síndrome da zika devem ser avaliadas por oftalmologistas, para descartar alterações dos globos oculares. No teste do olhinho (CHECAR) já se pode suspeitar clinicamente de alteração visual, pois é possível estabelecer um contato visual desde os primeiros dias de vida. Quando a criança estiver alerta e calma, podemos tentar fazê-la fixar os olhos em um objeto colorido. Caso haja a fixação, movimenta-se lentamente o objeto, para que ela o acompanhe com os olhos. A retinite pigmentar pode causar a perda de visão noturna e dificuldade de enxergar em ambientes com excesso ou pouca luminosidade. A visão periférica pode ser perdida de maneira progressivo, o que pode fazer com que a pessoa tropece ou esbarre em objetos fora de seu campo visual.

Alterações auditivas

Dano ao aparelho sensorial auditivo também pode ocorrer em consequência da infecção congênita pelo vírus zika. Do ponto de vista clínico, nem sempre é fácil avaliar a integridade auditiva no recém-nascido, pois depende do estado de alerta da criança. Nas crianças um pouco maiores, é possível fazer um estímulo sonoro perto de uma das orelhas. A criança, então, deverá voltar a cabeça para o lado do barulho estimulado. Deve-se proceder o mesmo do outro lado. Um reflexo também utilizado consiste num estímulo sonoro vigoroso e abrupto (bater palma, por exemplo) perto da criança. A atitude reflexa normal será a criança piscar os olhos, o que não ocorrerá se ela tiver déficit auditivo profundo.

Dificuldades de deglutição

Deglutir, mastigar e sugar são atos motores que também são coordenados pelo cérebro. Crianças com malformações cerebrais e outras lesões, como as que ocorrem na síndrome da zika, podem apresentar comprometimento da sucção e deglutição (o que é chamado disfagia), com aumento no risco de pneumonia aspirativa. Esse tipo de pneumonia pode ocorrer se a criança aspira líquido, que é desviado para o pulmão. É fundamental observar a criança mamando para avaliar o padrão de sucção, bem como a ocorrência de engasgos. Uma avaliação especializada com profissional da fonoaudiologia é importante nesses casos.

Atraso do desenvolvimento

Toda criança com danos no sistema nervoso central apresenta risco para déficits nas áreas motora, cognitiva, social etc. É importante acompanhar as etapas dos marcos de seu desenvolvimento, para que ela possa ser encaminhada o mais cedo possível para avaliação especializada e intervenção precoce.

Importante: Todos esses problemas diagnosticados podem ser tratados com resultados positivos. E quanto mais cedo se iniciar o tratamento maiores serão esses resultados. Procure o tratamento especializado. É seu direito.